Eu quero presos os políticos dos outros

O maior termômetro do que pensa a população ainda é o botequim, as reuniões da ralé. Também são manipuláveis, mas expõem suas ideias e ideais de forma inequívoca. Todos clamam por Justiça, mas a sua justiça, inacreditavelmente parcial.

A pátria de chuteiras, parafraseando Nelson Rodrigues, ainda que discuta os aspectos políticos que influenciam suas vidas, seus dia a dia, ainda torcem desbragadamente por este ou aquele. Somos um povo passional. Apaixonado. Torcedor inconteste.

O que se discute é: mas ele fez por nós; ele foi um bom administrador; ele faz… Reflexo direto de nossa própria (in)consciência. Bem retrata João Ubaldo Ribeiro em sua obra “Viva o povo brasileiro”; a miscigenação baseada no estupro, a crueldade com os escravos e a consequente mentalidade casa-grande senzala que se enraizou em todas as classes(*)  brasileiras, a luta do povo negro pela sua libertação e sobrevivência, a hipocrisia, a devassidão e o jeitinho brasileiro são temas retratados de forma fidedigna na trama.

* A imposição dos dominantes e a aceitação dos dominados

O Brasil é assim, e será por longo período de tempo. Tivemos, pós democracia, um período de governo ambíguo, onde se fez necessário pela fragilidade ética e moral de José Ribamar Ferreira de Araújo Costa (José Sarney) o desmembramento da máquina pública numa imensidão de ministérios e secretarias para abarcar, aconchegar, locupletar diversos aliados (deles, não do Brasil). Depois Collor de Mello, coronelzinho modernizado, sem base, sem conceitos, rezando pela cartilha do establishment com pouco conteúdo de macroeconomia e uma equipe de atiradores de estilingue.

Enfim Itamar, uma incógnita que deu certo quando resolveu enfrentar, no seu novo Fusca, a inflação que parecia indomável. Descobriu-se que o que faz uma boa administração não são, necessariamente, os ministros nomeados, mas a estabilidade que permite à equipe que o assessora, esses sim, técnicos.

Ai o caldo desandou. O Brasil acreditou em si, a população percebeu que seu dinheiro valia sem a inflação cruel que o corroía.

No entanto, acreditamos numa promessa vazia, vaga, sem o menor conteúdo, sem ética, sem verdade. O mesmo partido que se recusou a assinar a Constituinte Cidadã, que repudiou os seus parlamentares que votaram por Tancredo Neves, foi contra o Plano Real, tomou para si os projetos sociais desenvolvidos antes, teve um presidente que se ausentou de suas obrigações por completa falta de competência para gerir um país, comprou apoios no exterior com o suado esforço e impostos de nosso povo em busca de reconhecimento internacional.

Durante as eleições perdidas, arquitetou um “governo paralelo”, risível. Em tantos anos como candidato, sequer aprendeu sua língua pátria. Sentimo-nos traídos.

Elegeu o poste que, numa canetada, alterou o idioma, como se mestre fosse. Ah, Presidenta… não nos relegue a esse vexame. Mulheres Sapiens, Mandioca, bola de borracha… deixou apodrecer as bananas de nossa República.

Aventaram a possibilidade de uma traição. Fomos traídos quando tantos discursos foram feitos pela poste (tá vendo, neologismos) exaltando as qualidades políticas, culturais, éticas de seu vice, Michel Temer.

Basta!

O povo cansou, elegeu Jair Bolsonaro, não por ele, por suas ideias, mas pelo cansaço de saber-se vítima, impotente, quase inoperante. Votou num presidente que deverá obedecer aos anseios da população. O outro poste, avaliado como pior prefeito de todas as capitais, sucumbiu. Parte significativa optou por excluir-se da responsabilidade de tomar os rumos do poder. Enfim, de qualquer forma somos nenhum, e corríamos o risco de sermos comandados a partir de uma cela de prisão.

Queremos, estamos aprendendo a ter o comando de nossas vidas.

Incógnita

Será qual nosso futuro? As avenidas aprenderam a conviver com nossos passos, nosso caminhar, nossos cantos entoados. Repetindo a década de 1968, reivindicamos. Aquela esquerda não soube se assentar, eram ideais sem consistência. Perderam o bonde da história. Essa suposta direita foi mais inteligente, soube trabalhar algo mais do que a divisão da miséria. Num contingente em que pouco mais de 20% da população depende das benesses da economia capitalista para sua própria sobrevivência, venceu a classe que efetivamente trabalha e investe.

Essa mesma classe que pretende um desenvolvimento pleno, mantidas as proporções das qualificações, quer uma sociedade igualitária, equânime. Mas não há mais paciência para aguentar uma marginalidade que nos afronta e amedronta, num capitalismo de viés torto, onde eles ganham e nós somos furtados, roubados, estuprados em nossa dignidade.

Por isso, cada um de nós quer ver preso o outro.

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