Boechat, morremos um pouco quando se vai um de nós que ainda fazíamos jornalismo

Líbero Badaró,  aquele que ousou no primeiro reinado, onde havia mais democracia, ainda que num sistema imperial. Foi nosso primeiro estadista, com nosso primeiro ícone do jornalismo.

Depois o controverso século 20 e nos deparamos com Samuel Wainer, suas relações com o poder e com os concorrentes. Nesse percurso passamos a conhecer a Última Hora gaúcha, seus jornalistas e seus desafios.Carlos Lacerda, populista e populesco, mas com um texto maravilhoso. Era o momento de mexer com corações e mentes.

Tropeçamos com Otto Lara Resende, Assis Chateaubriand isso naquelas décadas de fogo, quando e onde expressar opinião é colocar o pescoço à forca.

Jornalista – jornalista de fato – nunca foi bem-vindo.

Muitos intelectuais se aventuraram pelos escritos jornalísticos, mas foram ensaístas, críticos, observadores, o que não lhes diminui, muito pelo contrário, só acrescenta à eles e ao jornalismo.

Castelinho (Carlos Castelo Branco) , nosso mestre primeiro, escrevendo de suas próprias intuições, longe do Planalto, e tão dentro dele.  Sérgio Porto, que pelas suas convicções e intromissões regaladas, pueris, ridicularizando com extrema capacidade os desvãos dos poderes. Chacota pura , expondo e água límpida nos mais torpes causos daqueles anos de chumbo…. kkk eufemismo para uma Ditadura Cruel, e ao mesmo tempo sagaz.

O pensador do Jornalismo, seu grande teórico, nossa bússola, Cláudio Abramo, entre  o saber, o poder, o fazer. Mestre.

Vamos pensar nos grandes

Todos foram grandes, coloque nessa lista Nelson Rodrigues, que deixa de ser mestre para ser ícone e ídolo, que rasga nossas vidas e a própria sociedade. Saudações, saudades e lágrimas à Paulo Francis, escrachado, debochado, inciso, cáustico.

Tarso de Castro, saudoso bebum e amigo, profundamente analítico, portador daquela loucura saudável que nos confronta com nossa outra realidade, dentre aquela acidez, dentre aquela coisa que nos faz pensar.

Estes são jornalistas: Otávio Riveiro (Pena Branca), de uma estupidez imensa que lhe colocava em risco a vida para provar a todos, especialmente à nossa classe jornalística, que apenas éramos títeres de editores e editorias.

Hoje caímos na mesmice de programas midiáticos, que apresentam um sem-fim de mesma matéria, ocupando espaço e tempo, julgando e condenando.

Talvez nos reste o Mitre – longa vida a você – quando perdemos outros possíveis bons, como Carlos Nascimento (SBT), ainda restrito; Arnaldo Jabor com tão pouco espaço, William Waak (eita Globo), Heródoto Barbeiro,  Joelmir Betting, José Paulo de Andrade. Um cem número de jornalistas da rádio que, por não serem tão bonitinhos nas câmaras – e nem fazem questão de sê-lo – estão o que se considera a míngua e à margem da informação, sem que se atine que o grande contingente da população ainda se informa pelo rádio. Graças. Mais liberdade, menos intromissão dos anunciantes, menos controle da produção e direção.

Nós, os mais velhos jornalistas perdemos uma referência; os mais jovens perdem um Mestre, assim grafado em maiúscula. Alberto Dines foi-se embora a pouco tempo, orientar Deus e Santos para a confecção da edição atualizada da Bíblia Sagrada. Mestre do texto, multi, multi, multi…

Não há um momento para lamentos, mas para engrandecer a oportunidade de haver convivido em sua época. Não haveria liberdade de imprensa, não haveria “ex libris” sem contar com Dines.

Vamos pensar nos pequenos

Não. Hoje não. Novamente estamos em luto pela perda do jornalismo. Estamos em luto, principalmente pela perda dos ouvintes, aqueles formadores de opinião, que discordam, concordam, comentam opiniões e palpites de quem se expõe, sem o jornalismo padrão, sem a pasteurização da informação.

Estamos pecando pela falta de memória, muitos outros poderiam e deveriam compor esse nosso acervo do bom jornalismo. Perdoe-nos. Apenas estamos preocupados que, com tantos jornalistas, poucos se exponham e sejam tão opinativos quanto estes – e demais esquecidos. Àquele que se propôs a atuar como “jornalista”, mal pago, pouco reconhecido, agredido por ações e ações judiciais para que possam provar o óbvio, é difícil e sacrificante viver em um mercado do fazer por fazer, cumprir jornadas, obedecer às ordens direcionadas pelo merchandising, saber sem dizer, dizer sem saber.

Não, não culpem aos jornalistas, poucos conseguem chegar a esse status por saber que a verdade se escamoteia, mas não se esconde eternamente. Por vezes passamos fome, não temos emprego, não temos guarida, mas temos nossa verdade. Francis morreu por causa de e sob um processo da Petrobrás – hoje tudo escancarado, mas naquela época… Abramo, conseguiu pouco em termos materiais; Sérgio Porto, também; Pena Branca,e por ai vai…

Somos um centésimo dos apresentadores mais bizarros, mais estultos, pior de informação, que consideram heróis a raspa da humanidade, e os promovem, os idolatram e criam uma corrente de imbecis a considerar a m… como se fosse o intestino, este sim com funções vitais.

Que se faça justiça

Conforme faz anualmente, as agências Jornalistas & Cia e MaxPress, em conjunto, realizam a pesquisa que escolhe o jornalista mais admirado pelo púbico brasileiro.

A pesquisa indicou mais de três mil profissionais entre os mais admirados e recebeu um total de 48 mil votos na internet de todas as partes do Brasil. Segundo o ranking anunciado, em primeiro lugar ficou o âncora da Band News FM e do “Jornal da Band”, Ricardo Boechat.

Não concordamos plenamente com a escolha dos outros, mas respeitamos as opiniões, afinal, é isso que jornalistas desse quilate nos ensinam. Respeito à diversidade. Respeito, Respeito. Respeito.

Manda notícias de lá, amigo e mestre.

 

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